“Como pode uma pessoa desaparecer do nada?”, questiona família de homem desaparecido há três anos em Santa Maria

“Como pode uma pessoa desaparecer do nada?”, questiona família de homem desaparecido há três anos em Santa Maria

Foto: Arquivo Pessoal

Idalina Pinto da Silva e o filho Sidnei Pinto da Silva, antes do desaparecimento.

A rotina de Idalina Pinto da Silva, 79 anos, passou a ser marcada pela espera. Moradora do interior de Candelária, ela convive há três anos com a dor do desaparecimento do filho, Sidnei Pinto da Silva, conhecido como “Liminha”, que tinha 40 anos na época em que desapareceu, em Santa Maria. Pelo menos uma vez por mês, a aposentada faz o trajeto até a cidade em busca de respostas – um caminho que, até hoje, não teve desfecho.

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Sidnei desapareceu em março de 2023, após sair de casa, no Bairro Menino Jesus, para sacar o Auxílio Brasil. Desde então, não houve qualquer informação sobre o seu paradeiro. O caso é acompanhado pela Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP).

Conforme relatado à reportagem, Sidnei morava sozinho e era bastante querido pelos vizinhos do Bairro Menino Jesus, onde vivia. Na época do desaparecimento, os próprios moradores se mobilizaram: confeccionaram cartazes com a foto do homem, divulgaram informações nas redes sociais e participaram das buscas em locais como o Morro do Cechella e a barragem do DNOS, onde havia suspeitas de que ele pudesse estar.


Santa Maria registra quase 600 desaparecidos em dois anos

A busca por respostas por parte da família de Sidnei não é única, e vai ao encontro de pelo menos outros 568 relatos de desaparecimentos registrados em Santa Maria nos últimos dois anos: 273 em 2024 e 295 em 2025 – média de 284 casos anuais.

Os dados mostram que a maioria das pessoas desaparecidas é adulta. Em 2024, foram 155 registros nessa faixa etária, número que subiu para 163 no ano seguinte. 

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Entre adolescentes e jovens (12 a 18 anos), os casos passaram de 106 para 112. Já entre crianças de até 12 anos, houve crescimento mais expressivo: de 12 para 20 registros.

Em 2026, até o início de março, já há 43 ocorrências – sendo 30 adultos, 11 adolescentes e duas crianças cujo paradeiro é desconhecido das famílias.

Apesar do volume, boa parte das pessoas são localizadas. Em 2024, houve 255 localizações, e, no ano seguinte, 276. Ainda assim, os números não correspondem necessariamente aos registros do mesmo período, já que muitos casos são solucionados anos depois – ou sequer são atualizados pelas famílias.


“Como pode uma pessoa desaparecer do nada?”

Esse cenário de mobilização e, ao mesmo tempo, de falta de respostas, intensifica ainda mais a angústia da família. Em carta enviada ao Diário, Idalina descreve a dor que se tornou constante desde o desaparecimento:

Desde o dia em que tiraram meu filho de mim, minha vida mudou muito, perdeu o sentido. Tento ser forte, mas não consigo. Penso nele todos os dias, ao deitar, ao levantar, a todo o momento – relata a mãe.

A angústia é compartilhada por outros familiares. Um parente, que preferiu não se identificar, resume o impacto da incerteza:

– As marcas que ficam é você saber que tem um familiar seu desaparecido. Todos os dias você se pergunta o que aconteceu com ele. Como pode uma pessoa desaparecer do nada?

“Não perco a esperança”

Embora muitos desaparecidos sejam localizados, os casos sem resposta deixam marcas profundas. No caso de Idalina, a esperança segue sendo o que sustenta a busca:

Não perco a esperança de um dia acharem ele ou até mesmo a roupa que usava quando sumiu [...]. Quero que a justiça seja feita, estou aos pouquinhos me terminando sem este filho que tiraram de mim – desabafa a mãe de Sidnei Pinto da Silva. 

Enquanto isso, a cada nova viagem até Santa Maria, ela mantém o mesmo objetivo: encontrar qualquer sinal que possa levar ao filho – ou, ao menos, trazer alguma resposta para um silêncio que já dura três anos.

Sidnei Pinto da Silva, desaparecido desde 2023 em Santa MariaFoto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Confira a carta completa:

"Desde o dia em que tiraram meu filho de mim, minha vida mudou muito, perdeu o sentido. Tento ser forte, mas não consigo. Ao falar nele, me escorrem as lágrimas pelo rosto. Penso nele todos os dias, ao deitar, ao levantar, a todo momento. Tenho sete filhos, e uma mãe nunca está preparada para perder um filho, muito menos da maneira que tiraram o Sidnei de nós. Um guri que não fazia mal para ninguém, não tinha inimigos, se dava com todo mundo. Não perco as esperanças de um dia acharem ele ou até mesmo a roupa que usava quando sumiu. Três anos se passaram de angústia e sofrimento, e nunca recebemos nenhum sinal ou prova que pudesse levar até ele. Ninguém some do nada sem deixar uma prova, ninguém viu nada, ninguém sabe de nada. Quero que a justiça seja feita. Estou, aos pouquinhos, me terminando sem este filho que tiraram de mim."


Casos que seguem sem respostas

Daniela Ferreira, Elizete Vieira da Silveira e Ana Lúcia Drusião seguem desaparecidas. Foto: Reprodução

Alguns desaparecimentos antigos ainda mobilizam a região.

  • Elizete Vieira da Silveira, 31 anos - a mototaxista sumiu em 6 de janeiro de 2012, após sair para uma corrida em direção a Dilermando de Aguiar. A motocicleta foi encontrada dias depois, em São Vicente do Sul, mas o caso permanece sem solução
  • Daniela Ferreira, 19 anos - desapareceu em Agudo, em 29 de julho de 2012, depois de sair de uma festa no Clube Centenário. Apesar da condenação de um suspeito da sua morte a 36 anos de prisão por homicídio, o corpo da jovem nunca foi localizado
  • Ana Lúcia Drusião, 35 anos - desapareceu em 30 de maio de 2016, em Dilermando de Aguiar. O carro foi encontrado no dia seguinte, próximo de sua residência, mas a investigação sobre o caso segue inconclusivo. O marido de Ana Lúcia chegou a ser preso, mas negou envolvimento

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